“Tudo que um cara fala uma vez, mulheres têm que falar 5 vezes.”

As pessoas ficam dizendo que tem uma “modinha” feminista acontecendo ultimamente, mas pra mim, o que está acontecendo é simplesmente que por algum motivo começaram a perguntar para as mulheres o que elas pensam sobre viver em um mundo dominado por homens. Na entrevista pra Pitchfork ela fala sobre o disco novo, parcerias e feminismo. traduzi o finalzinho da entrevista aí embaixo ❤

Pitchfork: O mundo tem dificuldade com as autoras mulheres.

björk: Eu não tenho nada contra o Kanye West. Me ajuda aqui – eu não tô fazendo pouco caso dele – isso é sobre como as pessoas falam dele. No último álbum ele chamou os melhores beatmakers do planeta até então, pra fazer as batidas dele. Uma boa parte do tempo ele nem tava no estúdio. E mesmo assim, ninguém questiona a autoria dele nem por um segundo. Se eu tô dizendo alguma coisa aqui pra você que vai ajudar as mulheres, eu vou dizer. Por exemplo, eu fiz 80% das batidas de Vespertine e eu demorei 3 anos pra terminar o álbum, porque era microbatidas – era como um bordado gigante. Matmos veio nas últimas duas semanas e colocou a percussão em cima das músicas, ele não fez nenhuma das partes principais, e em todo lugar estavam dando créditos pra ele como se ele tivesse feito tudo sozinho. [Matmos’] Drew [Daniel] é um amigo muito próximo, e em todas as entrevistas ele corrigia as pessoas. E ninguém nem ouvia ele. É muito estranho.

Pitchfork: Como você se sente quando isso acontece agora?

björk: Bom, eu tenho que dizer – sito que eu vou ganhar no longo prazo, mas eu queria ser parte do zeitgeist também. Eu quero apoiar as meninas mais novas que estão nos seus 20 e poucos anos e dizer pra elas: Você não tá imaginando coisas. É difícil. Tudo o que eu cara diz uma vez, você tem que dizer 5 vezes. Meninas enfrentam problemas diferentes. Eu já me senti culpada por uma coisa: Depois de ser a única menina em bandas por 10 anos, eu aprendi – do jeito mais difícil – que se eu quisesse que minhas idéias fossem aceitas, eu teria que fingir que eles – homens – tinham tido aquelas idéias. Eu comecei muito bem nisso e nem percebi. Eu sou muito egotrip. Eu não me incomodo muito. Só quero que a coisa toda seja boa. E eu não to falando mal dos caras que tocavam comigo nas bandas, porque eles eram incríveis e criativos, e estão fazendo coisas incríveis agora. Mas eu venho de uma geração onde ESSE era o único jeito que as coisas podiam ser feitas. Então eu tenho que me fingir de burra e fazer as coisas com cinco vezes mais energia, e aí eu vou conseguir.

Quando as pessoas não me dão crédito pelo que eu faço, é por muitas razões. Eu vou ficar muito metódica agora! (risos) Um! Eu aprendi que muitas mulheres tem que fazer oa caras na sala acharem que as idéias são DELES, e então apoiá-los. Dois! Eu passo 80% do processo de composição dos meus álbuns sozinha. Eu escrevo as melodias. Eu fico no computador. Eu edito muito. Pra mim é muito solitário. Eu não quero ser fotografada quando tô fazendo isso. Eu não convido ninguém. E os 20% do processo eu chamo as orquestras de cordas, os extras, isso é mais documentado. Isso é o que as pessoas vêem. Quando a eu conheci a M.I.A., ela tava resmungando sobre isso, e eu disse, “Só tira uma foto sua na frente da mesa de mixagem no estúdio e as pessoas vão dizer “Ah, ok! Uma mulher com uma ferramenta, tipo um homem com uma guitarra.” Não que eu não tenha feito muito isso , mas as vezes a gente é melhor dando conselho pras outras pessoas do que pra nós mesmas. Eu lembro de ver uma foto da Missy Elliott na mesa de mixagem no estúdio e ficando tipo, a-ha!É muito do que as pessoas vêem. Durante um show, porque tem pessoas no palco fazendo os outros pedaços, eu sou só a cantora. Por exemplo, eu pedi pra Matmos tocar todas as batidas na turnê do Vespertine, então é meio que compreensível que as pessoas pensem que ele fez elas. Então talvez nem todo o sexismo seja do mal. (risos) Mas é uma batalha em andamento. Eu espero que não fique muito defensivo, mas é a verdade. Com certeza eu posso sentir a terceira ou quarta onda do feminismo no ar, então talvez seja um bom momento de abrir a caixa de Pandora um pouco e deixar circular o ar.
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