Emo: Onde as garotas não estão – de Jessica Hopper do zine Punk Planet #56 Jul Aug 03

Alguns meses atrás, eu estava num show do Strike Anywhere. A banda começou a tocar “Refusal”, uma música que oferece solidariedade para o movimento feminista e testemunha a luta na vida das mulheres. Não é uma música de proteção, não tem uma premissa romântica. É uma música sobre todas as pessoas serem igualmente importantes. Todo mundo estava dançando, meninos e meninas na veira do palco gritando junto, como vários shows no Fireside. No primeiro refrão da música, eu estava chorando. Eu frequentemente me emociono e derrubo algumas lágrimas nos shows do Strike, mas dessa vez foi por uma razão TOTALMENTE diferente. Uma conclusão fúnebre: eu tenho vindo aqui, no Fireside Bowl provavelmente umas 75 vezes por ano, nos últimos 5 anos. O número de vezes em que eu genuinamente me senti, ou percebi minha realidade ou a realidade das mulheres que eu conheço, representada em uma música cantada por uma banda de homens, é igual zero. A proporção de músicas/shows/expressões afirmativas da luta feminista/girldom é desconcertante. Essa música foi a primeira.

É de se esperar que a maioria das minhas amigas e eu que crescemos cada vez mais alienadas e distanciadas das nossas “cenas”, ou começamos a nos abrigar da fortaleza impregnante do emo em recessos quase ermitões na música eletronica, DJs ou experimental. É de se esperar que as garotas que eu conheço se sentem desdenhosas ou sem fé na música. É de se esperar que eu me sinto mais próxima de canções do MOP, com as suas histórias de dramas da quebrada e roubo de jóias porque é muito menos ofensivo do que ter que ouvir outra música de uma banda só de bofes dando uma aula sobre o holocausto romântico que ele tem passado. Porque em 2003, assim como, eu não consigo juntar esforços pra não estar cagando para as bandas bofes com as suas feridas AKA o gênero/praga conhecido como E-M-O. Músicas e cenas populadas por visões de mundo míopes que não vão além do trauma-rebelde aveludado deles, seus corpos ou seus vans. Enquanto isso, somos deixadas imaginando “como é que a gente chegou aqui?”

Como os sentimentos do hardcore e o punk político se tornaram mais cliché chegando no final dos anos 80, quando todos nós nos sentamos na poltrona confortável da era Clinton, o punk começou a perdar a casca dura e chegar no seu coração fofinho. Esqueça as bombas e os impactos de uma economia ruim, é tudo sobre beijos e demonstrações de afeto fofas-porém-inegavelmente-masculinas. As mixtapes por todo os EUA floresceram com hinos de corações esperançosos de meninos hasteados nas mangas, travesseiros ensopados de lágrimas e exaltações de relacionamentos. Era o tempo do romance.

Eu acho que em algum lugar entre o lançamento do último disco do Braid, é onde a gente perdeu o fio da meada. Até ali, as coisas pareciam razoáveis, encorajadoras, excitantes – o que era vendido para nós era a vulnerabilidade, tinha alguma coisa revigorante naquela confiança/ingenuidade. Novas bandas tem suas micro-carreiras inteiras de bandas que todos gostatávamos: Jawbox, Jawbreaker, Sunny Day Real Estate, etc. Nessas bandas, eram músicas sobre mulheres, mas eram mulheres com nomes, com detalhes de suas vidas, mulheres que não eram exclusivamente definidas pela sua ausência ou pela lente do espectro-romântico. A música mais famosa do Jawbox, “Savory”, era sobre reconhecer o privilégio masculino, sobre o peso da sexualização sobre uma mulher (“see you feign surprise / that I’m all eyes”). Nas músicas do Jawbreaker as mulheres ainda tinham vida, ânimo e agência. Algumas vezes era amigas, ou uma irmã, nem sempre uma garota para ser comida ou perseguida ou largada por eles. Elas eram assertivas e reais.

E depois, alguma coisa se quebrou – e não era o coração sensível do Bob Nanna ou do Sr. Dashboard. Discos de uma legião de bofes injustiçados se enfileiraram nas prateleiras das lojas. Todo disco era um álbum-conceito sobre um término de relacionamento, amaldiçoando a garota do outro lado. O conteúdo dos monólogos do emo era uma mistura de dilemas de um Peter Pan com punho cerrado, álbuns inteiros que são cartas sobre pussy-jail, catedrais construídas para venerar a dor-dozome (man-pain) e Robert-Bly-ismos, sofrimento mulher-induzido que passou de descritivo para prescritivo. Emo era apenas outro fórum onde as mulheres era congeladas para sermos olhadas de fora, observando nós mesmas pelos olhos de outros. A permanência dessas bandas, a onipresença assoladora dos sons emo e sua crescente presença na mídia e na Billboard codificou emo como um TIPO DE SOM, onde anteriormente havia diversidade.

Garotas nas canções emo hoje em dia não tem nomes. Nós não somos identificáveis. Nossas vidas, nossas lutas, nosso dia-a-dia-a-dia não existe, nós não somos coloridas. Nós variamos de namoradinhas para malditas e só. Nós deixamos machucados nos corações dos meninos, mas não deixamos nenhuma outra marca. Nossas Existências, nossas ações são representadas apenas através do detalhamento dos problemas de um garoto-cantor, – nosso lugar de poder pessoal, é simplesmente uma migalha do impacto na vida romântica dele. Estamos presas numa coleira curta em um quintal sujo, – somos mistérios a ser desvendadeos, corpos para ser agarrados, merecedoras de um salário mínimo de lealdade, colhedoras de sofrimento e repositórios de desprezo. Recipientes redimidos pela luz do amor de um garoto. Em um pedestal de barriga pra cima. Musas no máximo. Trapos de limpar porra ou invísiveis na melhor das hipóteses. Dê uma olhada nas nossas fotos nas capas dos discos, – estamos tristes e encantadoras e bem decotadas – Obrigada Hot Rod Circuit, The Crush, Cursive, Something Corporate, assinado: a garota dos sonhos que vocês puderam levar pra casa e consolar.

É um gênero feito por e para garotos adolescentes e pós-adolescentes, que evidenciam, nas suas letras e estética que o conhecimento que possuem sobre mulheres que vivem e respiram é pequeno o suficiente para caber numa caixa de sapatos. A sensibilidade característica do emo é limitada à auto-sensibilidade, corre num labirinto fantástico de auto-piedade, oferece uma vulnerabilidade que é infinitamente egoísta. É um jogo de alto risco de controle, – de “ganhar” ou “perder” a posse da garota (veja como exemplo os álbuns do Dashboard Confessional, Brand New, New Found Glory e Glassjaw). Ainda assim, nessa vulnerabilidade não existe empatia, não há horizontalidade ou paralelismo. O anseio do emo não é se identificar ou entender, mas forçar uma hierarquia sexual e omitir o poder das mulheres via romantismo.

Como Andy Greenwald percebeu no seu quarto livro Nothing Feels Good: PUNK ROCK, TEENAGERS, AND EMO sobre a cultura emo, liricamente, os cantores emos – “se divertem com sua tristeza e sofrimento até quase atingir um estado de êxtase, mas com um uso limitado de sutileza e linguagem. Tende a parecer algo como se Rimbaud fosse colocado numa praça de alimentação”. As mulheres nas músicas emo são negadas dignidade e desumanizadas tanto através da linguagem quanto das narrativas, nós somos onipresentes, mas apenas no plano romântico; negando qualquer possibilidade ou esperança para a vida fora desses parâmetros, onde expressamos liberdade sexual, criativa ou vontade política.

***

Numa pista de dança em Seattle, um garoto que conheço resolve tocar no assunto:

“Ouvi dizer que você tá escrevendo uma coluna sobre como o emo é machista”

“Eu tô.”

“Como assim, “emo é machista”? As músicas emo não são tão diferentes do resto da história do rock, dos Rolling Stones ou o Led Zeppelin.”

“Eu sei. Mas prefiro não entrar nisso agora”

“Mas como músicas sobre términos de relacionamentos podem ser machistas? Todo mundo termina. Se você tem um problema com o emo então você tem um problema com toda a história do rock!”

“Eu sei. Eu tenho.”

E para parafrasear as palavras do compadre do Nixon, HR Haldeman, “História é uó”.

Deve ter alguma discussão, pelo menos sobre contexto, a respeito da narrativa do coração quebrado do garoto rebelde exemplificada nos últimos 50 anos de música baseada no blues. Deve ter algum reconhecimento de que quase toda banda desde o começo dos tempos, a maioria das músicas são sobre amar e perder mulheres. Corações quebrados são parte da existência humana. Músicas sobre mulheres que não são escritas por mulheres, praticamente define o rock’n’roll. E como uma mulher, e como uma crítica de música, como alguém que vive e morre pela música, tem uma rachadura dentro de mim, uma luta de quanto respeito você vai permitir, e quanto você vai ignorar porque gosta da música.

Você consegue ignorar a letra de “Under my Thumb” dos Stones, porque você gosta da música? Você está disposta? Quanta atenção você pode sacrificar pelo falocentrismo do Led Zeppelin ou pelas metáforas cafonas do AC/DC (humpa-humpa), ou pela montanha de mulheres mortas ou brutalizadas que se acumulam na discografia do Big Black? O emo está no escopo do rock, excepcionalmente por causa do modo como tratam as mulheres ou na sua eterna exaltação da imagem do cliché do garoto problema? Existe alguma coisa que separa a culpa do Dashboard Confessional de ser um traidor pular de cama em cama e as mulheres/mãe/puts/ex-namorada que aparecem nas músicas do Jane’s Addiction, Nick Cave, The Animals ou Justin Timberlake? Você consegue compartimentalizar e não julgar o peso colocado sobre as mulheres facilmente exemplificado na maior parte do catálogo do Zeppelin porque os primeiros 8 compassos de “Communication Breakdown” é divinamente foda? Onde você divide? Você se preocupa, porque se for tentar se livrar disso, você, como meu amigo disse – “ter um problema com toda a história do rock”- e porque QUEM, além de uma chata, séria demais, dispensa o Zeppelin? Você aceita as circunstâncias e falocentrismos dos últimos 50 anos ou mais de música, como ela é na cultura popular e na sua “comunidade punk”, simplesmente como ela é?

Quem você desculpa e porque? Você deixa sua personalidade e crenças políticas na porta e só dança, ou só poga, ou deixa o lado A sem tocar? Você consegue ignorar a marginalização das vidas das mulheres que povoam as prateleiras de discos, e desistir quando identifica um abismo gigante, porque é isso ou jogar fora toda a sua coleção de discos, tirando alguns álbuns de free jazz instrumental, uns 12” de micro house alemão e/ou lançamentos da Mr. Lady Records.

É quase uma pergunta grande demais para perguntar. Eu começo a me pergutnar, pra realmente investigar, e paro, quando chego a conclusão de que talvez eu devesse me aposentar e ir morar numa cabana de adobe em alguma montanha italiana e não receber nenhuma visita por um bom tempo. Ou me tornar a Andrea Dworkin e reportar impiedosamente que toda essa música feita por homens está a serviço da contínua opressão e dominação das mulheres. Às vezes eu sinto que toda música de rock que eu escuto é um golpe sexualizado contra nós. E eu sinto que ninguém entende nem uma migalha do impacto, ou nota ele na maioria dos dias.

Minha mais profunda preocupação sobre punir os efeitos da onda-emo-gigante não é tanto por mim ou minhas amigas mais próximas que conseguem se proteger rosnar da seguranca de nossas plataformas pessoais-políticas e coleções de discos bem protegidas, mas mais pelas meninas que eu vejo enchendo a frente dos shows emos. As que são mais novas, para quem essa é a mais provável introdução ao underground, para quem a porta de entrada pode ter sido pelo Weezer ou a tour do Vagrant America ou talvez o acústico MTV do Dashboard Confessional. Aquelas que procuram a música, que querem arriscar encontrar no punk rock, ou numa casa de show underground, uma saída para saciar uma necessidade aparentemente inalcansável, a mesma necessidade que me trouxe ao punk rock. Se torna uma questão particular porque o emo é o lugar dos jovens, seu alicerce acabou de ser assentado, minha preocupação é com as pessoas que não tem experiências prévias com o underground além de uma sala escura e dos acordes oitavados gastos que a Vagrant Records forjou.

Quando eu tinha essa idade, eu também tinha uma fome de música que falasse a língua que eu estava começando a decifrar, música que afirmava a minha fé, meus valores FUCK YOU do nono ano, e me encorajava a não permitir que meu feminismo não fosse esmagado pela cultura de massa – eu tive a sorte de ter dado de cara com coisas tipo a demo do Bikini Kill, ou Fugazi ou a primeira coletânea da Kill Rock Stars, ou os shows do Babes in Toyland. Eu esbarrei com polêmicas e respeito. Eu conheci minhas heroínas nas rajadas das guitarras, quebrando tudo sob a luz do palco. Eu estava me chocando com recompensas mais profundas, discos e bandas estavam disparando idéias e arrancando as portas de esperança e inspiração intermináveis. Eu entendo a importância de tudo isso porque eu sei que eu não seria quem eu sou agora, fazendo o que eu faço, 12 anos depois, se eu não tivesse entrado em contato com aquelas coisas, se não tivesse sido apresentada àqueas ideias sobre como a música, ou mais ainda, como a vida pode ser.

E então eu assisto essas meninas nos shows emos mais do que eu assito a banda. Eu vejo elas cantando junto, as partes que elas piram mais. Eu fico pensando no que isso faz nelas, se vendo aquelas bandas, aqueles caras no palco elas se inspiram a pegar uma guitarra ou umas baquetas. Ou se elas só vêem isso como algo que bofes fazem, porque não tem meninas, não são elas ali. Eu imagino que  se elas estão sendo impedidas pelo FATO de que não existe representação de mulheres como participantes/agentes, mas apenas como consumidoras – ou se nós reverenciamos as músicas diretamente – as consumidas. Eu penso que é aí que a música começa a acabar pra mim e para elas. Se elas podem radicalizar apesar disse. Se elas quando negarem para elas as chaves para o clube ou o tempo de programação, isso vai disparar uma faísca e elas vão entrar em ação.

Eu sei que pra mim, como uma bitch adolescente auto-didata, que pensou que todas as suas idéias era boas e dignas de serem expressadas e ouvidas, isso não me fez ter a idéia de começar uma banda até que eu vi outras mulheres fazendo música (Babes in Toyland, começo de 1990). Até esse ponto – ver o chugga-chugga do Bloodline quase 97 vezes nos picos de hardcore não adiantaram nada. A jogação de cabelo e solos do Dinosaur Jr não tinham feito nada por mim. As dúzias de bandas, bandas cujos discos eu sabia todas as letras de cor, que tinham bofes de 25 a 30 anos, com nada muito interessante a dizer, não me fizeram sentir que o punk rock estava de braços abertos para mim. Eu precisei ver o Bikini Kill num porão ilegal pra sacar, pra me mostrar que aquele era mais do que um lugar, um papel, para as mulheres ocuparem, e que a nossa participação é importante e vital – era um VOCÊ IMPORTA escrito enorme.

Eu não quero que essas meninas das fileiras da frente percam isso. Eu não quero que as garotas saiam dos clubes sem serem encorajadas e tendo seu potencial negado, irritadas e silenciadas pela masculinidade dominante. Porque por mais que o punk rock seja uma merda, por mais rasas e egoístas que sejam nossas reivindicações, sabemos que o punk é uma cultura REALMENTE DIFERENTE da média da sociedade, na sua fundação ainda existe uma possibilidade de conexão, de expor idéias radicais, do punk conseguir alcançar a idéia elaborada que muitos jovens sonham ou esperam do punk, porque isso existe, eu acredito que isso seja resultado da presença do tensionamento de mulheres, e essas mulheres devem ser encorajadas, convencidas a ficar, a querer pertencer, mais do que punidas ou diminuídas pela música que deveria juntar as comunidades.

Nós garotas merecemos mais do que uma música. Merecemos mais do que uma declaração de solidariedade. Nós merecemos músicas melhores do que qualquer garoto possa compor sobre nós.

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